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| Imagem: Wikimedia Commons |
Autor SUZANA HERCULANO-HOUZEL
Quando respiramos estamos literalmente envelhecendo. É simples, é bonito e é paradoxal. Para a biologia atual, o que nos leva à morte é exatamente o que nos mantém vivos: o metabolismo à base do oxigênio que nossas células respiram.
No corpo, a respiração celular desdobra o processo de combustão em uma série controlada de etapas intermediárias, o que ao mesmo tempo impede que o corpo se consuma de uma vez só em labaredas e permite que a energia liberada no processo seja transferida para outras moléculas, que servem como carreadores de energia. Aos poucos, assim, a energia liberada pela oxidação da glicose e de outros nutrientes sustenta o funcionamento das células.
Você "respira" usando seus músculos para forçar oxigênio para dentro, para que suas células respirem usando esse oxigênio para queimar moléculas e colher a energia liberada. O problema é que mesmo parcial, lenta e controlada, a combustão dos nutrientes dentro das suas células sempre gera moléculas altamente reativas e, portanto, tóxicas: são os radicais livres.
Ao reagir com o que estiver perto, os radicais, produzidos o tempo todo pela respiração que nos mantém vivos, aos poucos danificam a estrutura e o DNA das células, quebram o colágeno, enrijecem as artérias.
Com o tempo, os resultados acumulados desses danos se mostram em nosso rosto -até que chegue a falência completa do corpo, danificado demais.
O que nos envelhece e inexoravelmente leva à morte é o próprio oxigênio que nos mantém respirando: ao mesmo tempo fundamental à vida, mas às custas de nos levar à morte. A vida é, portanto, necessariamente autocontrolada. Para morrer basta estar vivo, de fato.
Publicado na Folha de S.Paulo
